sábado, 12 de julho de 2014

Paçoca Amor

Paçoca Amor

Para Mônica Ribeiro e Ribeiro

Paçoca, doce tipicamente nacional. Ela não existe em outros lugares do mundo e, por conta disso, se configura numa iguaria autóctone assim como a cachaça, o samba, a feijoada e a mulata, apesar de essa última estar fadada ao desaparecimento devido ao surgimento das negras metidas norte americanizadas. Há uma história que circula por aí falando do amor de um chocolate e uma paçoca. A paçoca, segundo consta, era indelével devido a seus traços. Por onde passava levantava suspiros. Grande, linda, deliciosa e de uma cor maravilhosa: um misto de açúcar mascavo com caramelo. Seu nome: Paçocão. Dizem que o amendoim, ingrediente básico da paçoca, é afrodisíaco. Talvez. Mas os segredos da paçoca estão em outros lugares, ela não pode ser simplesmente comparada a uma espécie de Caracu com ovo. Paçocão, que viria a ocupar um lugar único na vida de Chocolate Boogie (alcunha do homem chocolate) possuía esse mistério que só as verdadeiras paçocas conseguem ter. O charme, a beleza, a consistência, o sabor, esperteza, e o jeito sedutor de uma paçoca 100% nacional.

Determinada ocasião CB (pronuncia-se “Ci Bi”) e Paçocão estabeleceram uma discussão a respeito da real identidade da paçoca. A propósito, tratava-se de uma crise identitária de Paçocão que havia viajado aos Estados Unidos para passar uma temporada nas terras yankees aprendendo inglês, habilidade necessária no seu projeto de se tornar uma mercadoria globalizada. CB, que alguns brothers gringos gostavam de zoar chamando de Chocolate Bootie, se encontrava por lá há tempos. Ele não passava de um chocolatizinho interiorano metido a gringo que falava inglês errado e ganhava a vida na exportação de chocolates M&Ms para o Brasil e fazendo trambicagens. O desentendimento dos dois começara a partir dos vários pacotes de paçocas levadas por Paçocão como souvenir da terrinha buscando aplacar um pouco das saudades de Boogie do solo tupiniquim. Uma das grandes representantes dessa iguaria brasileira é a paçoça da marca Amor, que Boogie chamava desde criança de paçoquinha uma vez que a paçoca de fato para ele seria maior e mais consistente. Paçocão, de sua parte, afirmava que a paçoca Amor seria a verdadeira paçoca enquanto que aquela Boogie se referia como paçoca seria um doce de amendoim. Para CB (já disse que se pronuncia “Ci Bi”, porra!) aquilo não fazia sentido. Ele desde sempre se referiu ao suposto doce de amendoim como paçoça e a suposta paçoca como paçoquinha. Uma confusão!

Brigaram feio. Nas semanas seguintes levaram adiante sérias discussões sobre a identidade da paçoca durante noites a fio enfrentando o frio nova-iorquino bebericando longnecks de Colt 45 (malt liquor vagabundo de menos de um dólar), doses de cachaça Boazinha contrabandeada por Paçocão para a terra dos federalistas, comendo macarronadas com molhos de salsicha e fazendo exercícios sexuais nos quais encontravam prazer nas mais variadas, divertidas e contorcidas posições. No cool down do sexo eram picados durante o sono por bed bugs (percevejinhos gringos) que ficavam escondidos o dia todo em sua cama e que na madrugada surgiam se fartando do sangue de ambos e deixando como herança marcas vermelhas pelo corpo dos dois que eram coçadas com vontade durante o dia todo.

CB e Paçocão tinham uma vida relativamente tranqüila na Big Apple. Moravam num prédio velho e decadente do Harlem lotado de imigrantes em sua maioria dominicanos que falavam um espanhol caribenho indecifrável que os dois apelidaram carinhosamente de pacaiá pacaiá. O próprio zelador do prédio era dominicano e não falava absolutamente nada em inglês além do chamamento lugar comum my friend. Não havia banheiro dentro do apartamento e a cozinha, assim como o banheiro, era coletiva, suja e cheio de ratos. Paçocão reclamava da sujeira, da falta de Internet, TV e da água fria, pois o sistema de aquecimento havia quebrado bem no início do outono e eles já encontravam em pleno inverno. A falta de água quente obrigava o casal a tomar banho na academia de ginástica que freqüentavam tentando manter seus corpinhos em forma e na qual riam ao ver mulheres chocolate gordinhas moradoras do Harlem negro usando sacos preto de lixo cobrindo o corpo durante o workout com a crença de que perderiam mais calorias malhando daquela forma no mínimo peculiar.

O tédio da vida americana começara a tirar a alegria de Paçocão e ela se tornaria uma freqüentadora assídua da The New York Public Library passando dias e parte das noites debruçada sobre livros poeirentos e grossos a respeito da paçoca e sua história. Lendo descobriu - diferente do que achava - que a palavra paçoca não era um termo de origem africana, mas sim indígena. Vinha do tupi pa’soka, uma junção de paba (terminar) com soka (socar). O termo fazia referência à maneira como a comida que a pasoka indígena era produzida: uma mistura de carne assada desfiada com farinha de milho preparada socando a carne e a farinha no pilão.

A paçoca original de carne se aproxima em muito das comidas degustadas por tropeiros devido ao seu alto valor calórico e nutritivo, ou seja, é um prato que pequenas porções podem fornecer energia suficiente para grandes caminhadas no interior da inóspita mata fechada além de seus ingredientes serem facilmente transportados e de rápido preparo. Não é coincidência ela ter se integrado a dieta dos bandeirantes que desbravavam o interior e sertões brasileiros dizimando indígenas, buscando riquezas minerais e recapturando negros fugidos. Historicamente bandeirantes já são associados a origem indígena, sendo alguns em parte caboclos ou mamelucos (descendentes de mistura de indígenas com brancos) ou ainda cafuzos (descendentes de negros com indígenas), bem diferente da pureza portuguesa que lhes é sempre atribuída pela historiografia. Dizia-se que o infame herói paulista Domingos Jorge Velho (1641-1703), bandeirante responsável pela destruição do Quilombo dos Palmares com suas tropas mestiças, era um afamado comedor de paçoca que se casou apenas em idade avançada tendo antes várias concubinas indígenas. A mesma euforia por paçoca se diz a respeito de Anhanguera (Diabo Velho), alcunha tupi pela qual era conhecido outro famoso bandeirante paulista: Bartolomeu Bueno dos Santos (1672-1740). Paçocas e bandeirantes, uma história complexa!

Até hoje há cidades espalhadas por alguns estados brasileiros nas quais é possível degustar a paçoça salgada. Em Minas Gerais temos a Festa Nacional da Paçoca. Em Pilar do Sul, interior de São Paulo, acontece anualmente o Festival da Paçoça e no Paraná a paçoca é parte do cardápio tradicional do estado. Durante as festividades juninas no nordeste brasileiro, a paçoca é um prato indispensável. Todavia, ninguém sabe explicar muito bem como a paçoca ficou associada, em todo o imaginário popular, a um delicioso doce tradicional produzido a partir de amendoim, farinha de mandioca e açúcar. Há controvérsias. Alguns dizem que isso tem haver com as mudanças alimentares da região onde a paçoca se originou, os estados de São Paulo e Goiás. Entretanto, para sua decepção, Paçocão não conseguia obter informações confiáveis sobre a origem da paçoca doce contemporânea, a nossa deliciosa paçoquinha. Foi aí que um inquérito de ordem identitária e existencial tomou a direção de seu interesse.

Sua pesquisa focou, então, outros quitutes compatriotas. As descobertas se amparavam em livros que moldaram a identidade nacional e que traziam a culinária como um lugar privilegiado para se pensar a elaboração de tradições, leia-se aqui Açúcar: uma Sociologia do Doce (1932) e Casa Grande & Senzala (1933), ambos do saudoso Mestre de Apipucos, Gilberto Freyre (1900-1987). Cada doce, nesses e outros livros, tinha uma história específica como a bananinha caramelizada, o doce de abóbora, o pé de moleque, o brigadeiro, o quindim, a pamonha doce, a tapioca, o bolo de rolo, o doce de buriti, o pudim de leite, o curau de milho, a rapadura, a goiabada, o beijo de mulata, o papo de anjo, o bom-bocado, o manjar, a cajuada, a cocada, o merengue, a baba de moça, o beijinho, o cajuzinho, a canjica, o doce de caju, o doce de pequi, o melado de tacho, as baias de café, o chuvisco, o pão de cuca, o doce de pinhão e a torta de maçã "alemã". Ou seja, Paçocão descobriu que seus parentes, meio irmãos e irmãs, eram muitos e variados. Mas todos eles tinham em comum o aspecto docificado, atrativo possibilitado por uma especiaria: o açúcar.

Mais que isso. Numa leitura atenta de Açúcar: uma Sociologia do Doce, ela entendeu que Freyre olhava para essa iguaria como a responsável por juntar culturas e povos através da culinária. Era como se o açúcar fosse a liga que organiza a mistura fornecendo consistência e mantendo os diferentes ingredientes juntos. E a paçoca doce? De onde viria? O que significaria? Não importava muito como ela se elaborou, pensou, mas sim o significado e a origem de seus componentes. Assim, buscou entender cada um dos seus componentes em busca de pistas.

A paçoca é feita de amendoim torrado e pilado com farinha de mandioca e açúcar. Lendo livros de folclore, dicionários etimológicos e estudos antropológicos ela descobriu que tanto o amendoim como a farinha tem sua origem em tribos indígenas da América do Sul e faziam parte da dieta alimentar desses grupos. O termo amendoim é originário do tupi-guarani mãdu'bi (ou mãdu'i) significando "enterrado".  Há algumas lendas indígenas sobre o surgimento do amendoim. Uma delas afirma que havia um menino chamado Doinmã que defecava amendoins numa panela com o auxílio da mãe. Um dia a mãe saiu e deixou Doinmã aos cuidados do tio. O menino sentiu vontade de defecar e pediu a panela ao tio que, não sabendo da história, mandou o sobrinho fazer suas necessidades fora da casa.  O garoto saiu e defecou na panela. Horas depois o tio saiu da casa e, ao ver a panela, fartou-se de amendoim. Minutos seguiriam até ele descobrir a origem do amendoim e, extremamente irritado, surrou Doinmã até a morte. Com medo da reação da irmã, enterrou o corpo do garoto próximo a um rio. Todos lamentaram e choraram o sumiço de Doinmã, inclusive o tio. Passado algum tempo, uma planta surgira próximo ao rio que a mãe de Doinmã se banhava. Um dia, no momento em que a mãe se secava do banho, ela ouviu um choro igual ao de seu filho. Notou que a lamúria vinha da planta. Ao se aproximar dela e arrancar a mesma da terra, notou que nas raízes estavam os amendoins de Doinmã.

Mandioca também tem origem tupi vindo do termo mãdi'og, mandi-ó ou mani-oca cujo significado é "casa de Mani". Mani é a deusa benfazeja dos guaranis que se transforma em mani-oca. A lenda conta que ela seria a neta de um chefe indígena. Ao saber que a filha estava grávida de um rebento bastardo, o pai quis punir aquele que desonrara sua filha. A filha negou ter tido relação com qualquer homem mesmo após sofrer castigos impostos pelo pai. Decidido a matá-la, o pai foi impedido por um homem branco que lhe apareceu em sonho afirmando que a filha era de fato inocente não tendo tido relação com nenhum homem. Para surpresa da tribo, nove meses depois uma criança extremamente branca nasceu. Foi dado o nome de Mani à criança que andava e falava precocemente. Ao final de um ano, sem aparentar nenhuma doença ou dor, Mani caiu morta. Foi enterrada dentro de casa e a cova foi regada por determinado período seguindo o costume da tribo. Ao cabo de certo tempo uma planta desconhecida brotou, cresceu e deu frutos. Pássaros embriagaram-se ao comer os frutos da planta, fato que aumentou a superstição dos indígenas. Passado mais algum tempo, a terra fendeu-se. Ao cavar, os indígenas julgaram reconhecer o corpo de Mani nas raízes da planta. Ao comê-las eles aprenderam a usar a mandioca.

Não há unanimidade sobre a origem do açúcar. Há histórias que falam de sua existência há 6000 AC, mas estudos mais recentes apontam uma história mais remota, algo em torno de 2000 anos. Sabe-se que o primeiro lugar a cultivar cana de açúcar foi a Nova Guiné e de lá o cultivo se expandiu para as Filipinas, Fuji e outras ilhas menores localizadas no sudoeste do Oceano Pacífico. Os indianos, persas e chineses foram os primeiros a processarem açúcar oriundo da cana e a iguaria chegou a Europa levada por Alexandre Magno em suas campanhas empreendidas no Oriente. Séculos depois o açúcar seria explorado pelo comércio de especiarias que se estabeleceu no renascimento. Ele era visto como um produto sofisticado e medicinal, vendido em boticários e acessível somente aos indivíduos com alto poder aquisitivo. A produção de cana-de-açúcar foi trazida por portugueses para o Brasil como meio de explorar a nova colônia e o sistema de plantation (monocultura + mão de obra escrava + latifúndio) prevaleceu. O açúcar produzido no Brasil tinha aspecto escuro assim como a pele dos escravos que trabalhavam na sua produção em engenhos. Era depurado primeiro em blocos duros de cor caramelada ou marrom: o açúcar mascavo. Depois vieram as formas de refinamento que produziam os vários outros tipos de açúcar como o demerada, o cristal e o refinado.

Sim, havia uma enorme história por trás da paçoca doce. Não importava mais como ela deixara de ser salgada. Mas importava que o açúcar houvesse cruzado sua trajetória, trazendo novas perspectivas, unindo tradições e culturas, solidificando uniões. O açúcar mascavo, de cor caramelizada e marrom, não o açúcar branco refinado e ausente de cor e sentimento. Não é à toa que até hoje associamos o amor a algo doce, suave e tranqüilo. A paixão é arrebatadora, embriaga, tira a razão e nos faz cometer loucuras. Mas o amor é calmo e para ser degustado aos poucos. Amor, a melhor definição para o açúcar e a paçoca. Amor era o que se via nas lendas indígenas referentes ao amendoim (amor de mãe e filho), da mandioca (o amor proibido da indígena com o homem branco) e no açúcar (aquele que une povos e culturas através da culinária, do sabor e de receitas). Mas o açúcar, assim como o amor, tem a sua faceta sinistra. O açúcar também poderia matar. Quantos homens e mulheres negros morreram no período da escravidão vítimas do trabalho duro, brutal e desumano do plantio da cana e da produção de açúcar nos engenhos? Alguns foram deliberadamente assassinados. E o que falar dos indígenas dizimados pelos europeus para que em suas terras a cana pudesse ser cultivada? E mais contemporaneamente, já ouviu falar da história dos três brancos assassinos? Sal, trigo e... açúcar!

Paçocão, após semanas enfiadas dia e noite na biblioteca, saiu do prédio localizado na Rua 42 da ilha de Manhattan totalmente atordoada aquela noite. Tantas histórias, idéias e tradições estavam por trás da sua trajetória. Passando pela Times Square ela notou uma loja enorme da M&Ms. Sentiu pena dos turistas que enchiam suas sacolas de compras com o produto gringo ao pensar no sabor de seus doces locais. Não, o M&Ms não teria nem um terço da história dessa singela iguaria nacional chamada paçoca e que até hoje é vendida em botecos, bares, pé sujos, mercearias, supermercados, camelôs e unindo amantes através do simples gesto de degustar uma paçoca juntos.

Seguiu caminhando até a estação Times Square e dentro da mesma andou por um longo e entediante corredor branco alcançando o Port Authority. De lá tomou o trem A em direção ao Harlem. Sua cabeça girava entre pensamentos. Ao sair do metrô na estação da Rua 125 enfrentou quatro quarteirões debaixo de forte neve se deparando com faces negras em seu caminho até chegar ao prédio velho da Rua 123, entre as avenidas Amsterdam e Broadway, onde morava dividindo o espaço com ratos, baratas, bed bugs, imigrantes ilegais e sem água quente.

Ao subir os degraus da entrada do prédio, escorregou no gelo e caiu de bunda na neve branca que cobria toda a calçada e que os zeladores pacaiá pacaiá não haviam tirado aquele dia. Levantou se limpando da neve molhada, xingando e amaldiçoando os velhos coitados. Ao entrar no prédio e foi recebida por uma agradável massa de ar quente. Subiu as escadas sujas e chegando ao seu andar notou que a sujeira aumentava. Abriu a porta do corredor e viu seu homem CB cozinhando. Ao notar sua presença, ele respondeu com um sorriso sem graça. Cardápio: macarrão com salsicha, duas doses de Boazinha para abrir o apetite e duas Colt 45 de US$ 0.90 cada. O computador tocava a trilha sonora da noite: Love Supreme, John Coltrane. Sobremesa: a última paçoca Amor do pacote contrabandeado por Paçocão para a gringa, a ser dividida por dois. Depois de jantar, discutiram para ver quem comeria a paçoca sozinho ou como a dividiriam, enquanto CB preparava um café. Numa ida ao banheiro de Paçocão, CB (“Ci Bi”, caralho!), numa atitude egoísta, enfiou todo o doce na boca e comeu extasiado. Brigaram. Não treparam. Na noite seguinte Paçocão tomou um avião de volta às terras tupiniquins e seus meios-irmãos e irmãs doces. Numa tentativa de reconciliação, o homem chocolate até hoje envia enormes caixas de M&Ms da loja da Times Square para Paçocão que os vende fazendo fortuna. A cada novo pacote que chega pelo correio ela olha desconsolada, suspira e diz: “Se ele enviasse ao menos uma paçoca Amor...”

segunda-feira, 31 de março de 2014

50 Anos de "A Integração do Negro na Sociedade de Classes", de Florestan Fernandes


domingo, 16 de março de 2014

A Utopia de Um Mundo Sem Discriminação

A convite de meu amigo João Batista de Jesus Félix, professor na Universidade Federal de Tocantins (UFT), irei a Palmas e Tocantinópolis ministrar três palestras essa semana.



segunda-feira, 3 de março de 2014

A PL de Romário Para o Hip-Hop

Há mais ou menos uma semana atrás participei de uma conversa no programa JC Debate da TV Cultura sobre o projeto de lei proposto pelo deputado federal Romário que estabelece a regulamentação profissional de atividades (DJing, MCing, B-boying e grafiteiro) relacionadas a cultura hip-hop. É um projeto polêmico e a maior parte do hip-hop paulista se posiciona contra. No programa não houve propriamente um debate, pois seria necessário que houvesse alguém defendendo o projeto de Romário, coisa que nem Max BO, MC apresentador do programa Manos e Minas (TV Cultura), nem eu fizemos.


O projeto do deputado soa como um tiro no escuro se analisarmos a trajetória do ex-jogador de futebol convertido em político. Como aponta BO no programa, Romário nunca demonstrou nenhum interesse ou aproximação com o hip-hop durante toda a sua carreira esportiva. Contudo, é necessário lembrar que o projeto pode ser nada mais do que a força do lobby de grupos associados com manifestações populares no Rio de Janeiro e que podem de uma forma ou de outra tirar proveito de uma proposta como essa. A "cultura hip-hop" no Brasil a cada dia que passa é reconhecida como um grande capital simbólico que pode funcionar como via de comunicação com jovens das mais diversas classes, raças/etnias, gêneros e regiões. É algo poderoso e, por isso mesmo, disputado (mesmo que na surdina).

Assista o programa e tire suas conclusões.

Detalhe: a montagem acima é hilária, principalmente o "gangsta do bem"! :)

Abraço!


domingo, 2 de março de 2014

Lupita Nyong'o e Nayara Justino


Ando sumido do blog. Sem tempo para escrever. Mas é carnaval, tempo de folia para uns, trabalho e/ou descanso para outros. Enquadro-me nas duas últimas opções. Aliás, a vida anda tão corrida que me esqueci que hoje, bem no domingo de carnaval, acontecia a cerimônia de entrega do Oscar (ainda acontece enquanto escrevo). Rompi meu silêncio de mais de um mês para falar de algo que estava ensaiando desde ontem mas hoje, logo após a notícia da atriz queniana Lupita Nyong'o ter levado o Oscar de melhor atriz coadjuvante por sua participação em 12 Anos de Escravidão, tive certeza que era o momento de escrever.

Enquanto nos EUA Lupita fatura o Oscar, li uma notícia ontem que Nayara Justino, a "mulata" Globeleza 2014, teve sua vinheta tirada do ar e substituída por outras do sambista Arlindo Cruz além de ter sido proibida de dar entrevistas nas últimas duas semanas devido a sua rejeição pelo público telespectador da Rede Globo. A notícia circulou na sexta-feira, 28 de fevereiro, no/na blog/coluna da jornalista Fabíola Reipert do portal de notícias R7 (leia AQUI). De acordo com a jornalista, Justino foi comparada pelo público ao personagem Zé Pequeno do filme Cidade de Deus, do diretor Fernando Meireles. Interessante para além de ler a notícia é analisar os comentários dos leitore/as da coluna: um verdadeiro exemplo de objetificação da mulher com afirmações bastante objetivas dos atributos necessários a ser uma "Mulata Globeleza".


Vejamos. Enquanto uma atriz negra conquista um Oscar, uma modelo negra é escrachada em público por não se enquadrar no padrão europeizado de beleza. A resposta da emissora de TV não é defendê-la, mas simplesmente trocá-la por um negro sambista (que em nenhum momento se pronuncia). No carnaval brasileiro não é apenas a cultura negra que tem se mercantilizado de forma absurda, rendendo lucros exorbitantes a pessoas e grupos totalmente estranhos a cultura popular. Corpos negros perdem cada vez mais a sua humanidade num claro exemplo de racismo. Devo estar enganado, logicamente irão dizer. Mas se Nayara Justino teve sua humanidade negada como "mulata", talvez a reencontre como "negra".

Parabéns Lupita! 

Bom carnaval e durma com esse barulho...

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

A História dos Panteras Negras Finalmente Contada

Gostar muito de livros é uma droga. Você compra vários e não tem tempo de ler todos. Ano passado, quando ainda morava em Nova York, comprei Black Against Empire: The History and Politics of the Black Panther Party (US$ 19.22 - 25.80,  539 páginas, University of California Press, 2013) dos historiadores Joshua Bloom e Waldo E. Martin Jr., leitura que estou tendo chance de fazer somente agora. Lançado no início de 2013, a obra é o resultado de mais de uma década de pesquisa desses dois acadêmicos em relação ao tema.

O Black Panthers Party (BPP) entrou para o imaginário da "geração hip hop"e do senso comum por conta de sua postura revolucionário e desafiadora em relação estado norte-americano nos anos 1960: negros que se armaram e começaram a patrulhar as ruas dos bairros negros tentando coibir a ação abusiva da polícia em sua abordagem da população moradora dessas áreas. Há vários mitos que ligam o surgimento de gangues como Bloods e Crips de Los Angeles partindo do modelo de organização dos Panthers. Outro ponto que explica em parte a entrada do BPP na mitologia da revolução política armada é a ausência geral de revoluções armadas nos Estados Unidos desde o ano de 1865.

Nunca li de fato um livro contando a história do BPP (em português não há nada disponível) e ao folhear as primeiras páginas do livro de Bloom e Martin Jr. descobri que isso foi uma coisa ironicamente boa. Revisando a produção acadêmica e não acadêmica sobre a história do grupo, os autores afirmam que a maior parte dessa literatura é ideologicamente enviesada devido a ausência de fontes confiáveis. O que é explorado nesses trabalhos busca reconstruir a conexão entre o partido e violência (armas) a partir de entrevistas ou relatos orais de ex ativistas, análise de esparsos documentos produzidos pelo grupo e de matérias sensacionalistas publicadas na imprensa.

A estratégia adotada pelos historiadores foi distinta. Após a análise de relatos orais esgotarem as possibilidades de reunir novas informações, os historiadores voltaram suas análises para os documentos produzidos pelo grupo cruzando dados e contrapondo-os com a história oral ou trajetória individual de ativistas. Essa metodologia possibilitou a reconstrução de uma genealogia das estratégias e dinâmicas das práticas políticas além das diretrizes ideológicas do BPP. Em seu trabalho de pesquisa os autores coletaram, reuniam e arquivaram o mais completo acervo do períodico do partido criando o Black Panther Newspaper Collection. Essa coleção conta com todas as edições do jornal entre 1967-1971 (período de maior influência e atividades do grupo) e ao todo são 520 edições de um total de 537 publicadas pelo grupo. A partir desse acervo já foram produzidas dezenas de dissertações de mestrado e teses de doutorado. Black Against Empire é o primeiro livro voltado para um público mais amplo, não acadêmico.


O BPP surgiu na cidade de Oakland, Califórnia, no final de 1966. Seus fundadores foram os estudantes Huey P. Newton e Bobby Seale. Newton, ao estudar a constituição estadual, descobriu uma lei que permitia o porte  e exibição pública de armas legais por qualquer cidadão californiado desde que as mesmas tivessem o objetivo de segurança pessoal. Cansados dos abusos policiais, os jovens estudantes arregimentaram outros jovens dispostos a realizar a patrulha da ação da polícia. Eles seguiam as viaturas policiais armados e acompanhavam as abordagens feitas a cidadãos negros. Contudo, a idéia de auto-defesa e uso de armas teve que ser reavaliada pelo grupo quando a lei que sustentava a ação dos BPP foi revogada pelo estado da Califórnia.

Até meados de 1968, o BPP era uma organização relativamente pequena. Ao final daquele ano no entanto tudo mudaria: cerca de 20 filiais foram abertas em cidades que se extendiam de Los Angeles à Nova York.  Em 1970 havia cerca 68 escritórios do grupo espalhados por todo os Estados Unidos.  Os historiadores concluem que: "The Black Panther Party had become the center of a revolutionary movement in the United States" (O Partido Black Panther tinha se tornado o centro de um movimento revolucionário nos Estados Unidos). Sua rápida expansão e as idéias defendidas pelo grupo levaram o diretor do FBI à época, J. Edgar Hoover, a fazer uma famosa declaração: "The Black Panther Party, without question, represents the greatest threat to the internal security of the country" (O Black Panther Party, sem dúvida, representa a maior ameaça a segurança interna do país).

Em linhas gerais, a rápida expansão do BPP é explicada pelos autores devido a uma série de fatores conjunturas relacionadas a situação das relações raciais nos EUA na segunda metade dos anos 1960. O Movimento Pelos Direitos Civis havia triunfado com as decisões da Suprema Corte em seu favor de 1964 e 1965 (Civil Rights Act e Voting Rights Act) que anulavam leis que sustentavam a segregação racial vigente no sul do país. Porém, havia uma massa empobrecida de negros urbanos ao norte para os quais essa medida trouxe poucos ou nenhum benefício. Esse era um nicho da população afro-americana que vivia a realidade dos guetos urbanos de cidades como Chicago, Nova York, Los Angeles e enfrentava cotidianamente desemprego, violência policial, segregação urbana e residencial além de racismo institucional.


Nesses  espaços havia mais recepção as falas inflamadas de Malcolm X do que a ideologia de não violência vindas de Martin Luther King Jr., um representante da classe média e burguesia negra sulista. Porém, foi justamente após o assassinato de King, em 1968, que teve início uma radicalização ideológica dos movimentos negros. King era responsável por manter coalizões entre diferentes grupos dentro e fora do movimento pelos direitos civis e com sua morte essas alianças deixaram de existir. O resultado foi a ascensão de ideologias como o Black Power e maior evidencia de jovens lideranças como Stokely Carmichael. Um filme que retrata bem esse período é o documentário The Black Power Mixtape 1967 -1975 (leia mais AQUI). Nesse bojo, o apelo vindo dos Panthers à auto-defesa cairia como uma luva e atrairia a atenção de jovens urbanos das grandes metrópoles, pouco dispostos a aderir a ideologia de não violência ou que entendiam como ineficiente.

Em termos teóricos, o BPP associava ideologias revolucionárias de esquerda oriundas no Terceiro Mundo (termo corrente à época) com a tradição de nacionalismo negro. O grupo via as comunidades negras nos Estados Unidos como uma colônia e a polícia como um exército que a ocupava organizando e controlando seu funcionamento. Assim, Huey P. Newton e Bobby Seale criaram um discurso político revolucionário que desafiava o status quo norte americano. Tendo Malcolm X e Franz Fanon como influência, eles afirmavam que "the black people constituted a 'colony in the mother country'" (o povo negro constituem uma colônia dentro da pátria mãe) Assim sendo, o grupo se tornou o elo de ligação entre a luta por independência negra no interior dos EUA e os oponentes ao imperialismo americano ao redor do mundo.


O período de existência do grupo se extendeu de 1966 a 1982. Entre 1969 e 1975 o FBI concentrou seus esforços em desmantelar o BPP através seu programa de contra inteligência, COINTELPRO. Fazendo uso de táticas que idam desde a infiltrar agentes que serviam como informantes e agitadores dentro do grupo chegando até a execução de lideranças, o FBI buscava difamar o BPP apresentando o mesmo como uma ameaça à sociedade norte americana e questionador de seus valores: um inimigo do estado. Essa estratégia impedia que o BPP e outros grupos nacionalistas ganhassem a respeitabilidade da maior parte da população negra e não negra. Apenas aqueles que estavam mais próximos de suas atividades e/ou se beneficiavam de seus projetos - como o Free Breakfast Program (café da manhã gratuito para a comunidade e principalmente crianças) - eram capazes de ter uma percepção diferenciada do grupo.

Os autores do livro afirmam que essa tática do FBI em vilipendiar o grupo também explica em parte o pequeno número de trabalhos sérios sobre o BPP. O grupo entrou para a memória coletiva dos EUA como um bando de homens e mulheres negros/as raivosos/as, comunistas e armados/as dispostos/as a derrubar o governo americano por todos os meios possíveis. Black Against Empire busca fazer jus a história real do BPP distanciando-se da difamação e mal entendidos criados e recriados no decorrer do tempo. Leia um trecho do livro AQUI 

Por fim, um livro que serve como uma boa companhia para ser lido conjuntamente a esse sobre o BPP é a nova biografia de Malcolm X escrita em 2011 pelo historiador Manning Marable. A obra conquistou o prêmio Pulitzer em 2012 como melhor livro de história publicado em 2011.  Traduzido para o português ano passado ele foi lançado por aqui pela editora Companhia das Letras sobre o título de Malcolm X - Uma Vida de Reinvenções. Leia minha resenha do livro clicando AQUI e um trecho do livro AQUI

Muita Paz, Muito Amor!

domingo, 19 de janeiro de 2014

A Supremacia Branca de "Breaking Bad"


Todo mundo anda assistindo e falando sobre Breaking Bad, a série de TV ganhadora do Globo de Ouro de 2014.  A série explora a história de um professor de química do ensino médio (Bryan Craston) convertido em traficante de drogas com o auxílio de um ex aluno (Aaron Paul). Assisti às seis temporadas da série, que foi ao ar nos Estados Unidos entre 2008 e 2013, em pouco mais de duas semanas. Confesso que o roteiro da mesma prende a atenção do/a telespectador/a e a producão tem a mesma qualidade das grande produções de Hollywood. Há uma série de absurdos do ponto de vista da verosimilhança, mas eles não afetam o desfrute de um olhar menos sociológico do show.

Porém, desde o primeiro episódio que assisti, um certo incômodo me abateu. Tentei compartilhar do mesmo com minha namorada (que não assistiu a série) e com um brother, Rogério Cruz, um grande entusiasta da mesma. Entretanto, tive que terminar de ver as seis temporadas para conseguir articular melhor meu mal-estar. Resumidamente, ele se referia ao racismo presente na série.

No início, o que me chamou a atenção foi o ambiente racializado da série no qual personagens pertencentes a minorias raciais estavam circunscritos a papéis estereotipados. Quase todo/as o/as latinos/as são traficantes, pobres, moram em bairros problemáticos ou optam pela vida marginal como se a mesma fosse um destino do qual é impossível se desvencilhar. Duas únicas exceções são um agente do DEA (polícia anti drogas) que é constantemente alvo de piadas racistas de seu parceiro branco e a diretora da escola retratada na série. O universo de Walter White, o professor de química, é constituído por pessoas iguais a ele e sua família: branco/as.

A ligação de White com o submundo das drogas se dá através de seu ex aluno e futuro sócio de empreedimentos ilícitos, Jesse Pinkman. Pinkman é a incorporação do loser de classe média que largou a escola e passou a se dedicar ao ofício de produzir metanfetamina. Nesse ponto, vale a pena notar a caracterização racializada do jovem que é branco mas usa roupas, age, fala e vive com toda uma simbologia que remete ao gueto negro/latino.  Pinkman ouve rap, dirige um low rider e termina a maior parte de suas frases com um "yo" ou "bitch". Seus amigos são jovens latinos e brancos sem futuro que passam o dia bebendo, usando drogas e tendo diálogos sobre cultura pop sobre o efeito de "viagens" causadas por alucinógenos. Mas conforme Pinkman vai se tornando mais profissional na produção de drogas, ele paulatinamente vai se desfazendo dos sinais que o associam ao gueto como as roupas coloridas e acima do número e a linguagem carregada de gírias.

Um último ponto que me incomodou foi o fato de que até a segunda ou terceira temporada apenas latinos são mortos na série. Porém, meus argumentos eram poucos e fracos para acusar BB de racismo. Foi aí que lembrei que tinha lido algo há quase dois anos atrás e que na época não me chamou tanto a atenção, uma vez que não estava acompanhando o show.

Malcolm Harris escreveu para a The New Inquiry em 2012 o instigante artigo The White Market (leia AQUI). Nele o jornalista evidencia como BB repõe a velha fábula presente em vários personagens de desenhos animados e em filmes de ação como Tarzan e bangue bangue na estética John Wayne, ou seja, uma idéia de supremacia branca onde o homem branco consegue inverter as adversidades de um ambiente desconhecido, inóspito e hostil a ele usando de sua superioridade racial. Contudo, a fábula teve que ser complexificada no caso de BB, uma vez que há uma diferença entre o branco que se sobressai ante uma savana africana cheia de nativos negros canibais e animais selvagens ferozes e o professor de química cientista mal sucedido que produz uma super droga 99% pura que todos os drogados dos EUA querem consumir e traficantes obter a receita de produção. No contexto de White (e preste atenção ao seu nome...), todos os mexicanos donos de cartel são imbecis que matam de forma irracional, levam uma vida desregrada e produzem sua droga de forma desleixada e amadora. Nesse sentido, é necessário injetar o mundo das drogas da brancura de White (um pleonasmo) através de sua obsessão com qualidade e limpeza. Ou seja, sejamos mais capitalistas! 

Entretanto, no mundo real, essas lógicas não funcionando dessa forma. Drogados não se preocupam com pureza e, assim sendo, obsessão com limpeza e qualidade significam perda de lucro. Citando a série The Wire através do traficante Stringer Bell (Idris Elba), Harris exemplifica o street wise econômico das ruas que tira a credibilidade do personagem Walter White: “When it’s good, they buy. When it’s bad, they buy twice as much. The worse we do, the more money we make.”  (Quando a droga é boa, eles compram. Quando ela é ruim, eles compram duas vezes mais. O quanto pior nós a fazemos, mais dinheiro nós ganhamos).

Tarzan, John Wayne e Walter White são personagens que acariciam os brios de uma supremacia branca, mas que só existem no mundo da ficção, pois a vida real é bem mais complexa e diferente.

Muita Paz, Muito Amor!

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

De Rolê Por Aí... Resistência Política ou Consumo?

“Os comícios de todas as noites na Praça do Patriarca e as concentrações também à noite de negros agressivos ou embriagados na rua Direita e na Praça da Sé, os botequins do centro onde os grupos se embriagam, já estão provocando protestos, justíssimos protestos, até pela imprensa, pois não é possível uma cidade como São Paulo ficar a mercê de hordas grosseiras e malcriadas, prontas a se desencadearem contra qualquer branco, homem ou mulher, desde que um gesto involuntário, um olhar mesmo, possa ser mal interpretado por esses grupos brutais e violentos”. “Negros do Brasil” – Paulo Duarte, O Estado de São Paulo, 17 de abril de 1947.

Rolezinhos, não se fala em outra coisa. Não tinha a intenção de escrever sobre o tema, mas venho lendo tanta coisa que me desagrada na web que decidi alinhavar algumas linhas sobre o fenômeno. Algo curto, que fuja do sociologuês e evite exotizar, vitimizar ou alocar uma precoce agenda revolucionária e/ou de resistência nos jovens que participam dos rolezinhos.

O trecho que abre esse post foi retirado do artigo "Negros do Brasil" publicado no jornal O Estado de São Paulo e escrito pelo jornalista Paulo Duarte (1899-1984). O texto evidencia a preocupação das elites paulistanas em relação à ocupação da região central da cidade pelos negros nos anos 1940, associando-os ao perigo e à violência. A Rua Direita foi motivo de várias polêmicas entre a população negra e os comerciantes ali estabelecidos nessa época (basta ler relatos históricos sobre esse período). Certa feita tentou-se proibir a circulação deste contingente da população no local e num artigo de jornal os lojistas alertavam que os negros estavam dando a São Paulo um aspecto de Havana, Cuba. Duarte, contudo, não atacava somente os negros “agressivos” e “embriagados” da Rua Direita e da Praça do Patriarca, mas também o que ele chamava de “sociologia nigro-romântica do Nordeste” e a literatura “dos sociólogos romancistas ou dos romancistas sociólogos tidos como alunos do Sr. Gilberto Freire (sic); rapazes de algum talento, sem possuir, no entanto, do mestre nem a cultura nem a análise aguda deformada apenas pela sua irreprimível imaginação tropical cheia de brilho”. Esses intelectuais, de acordo com o literato paulista, insistiriam em pintar um tipo brasileiro definitivo tendendo para o negro, mas Duarte afirmava categoricamente do alto de sua sapiência paulista quatrocentona: “Uma coisa, porém, existe e existirá com absoluta nitidez, a deliberação marcada pelo consenso unânime dos brasileiros lúcidos: o Brasil quer ser um país branco e não um país negro” (leia o texto completo de Duarte clicando AQUI).

O contexto é distinto, mas o fenômeno dos rolezinhos guarda similaridades com as polêmicas dos anos 1940 e 1950 envolvendo negros, brancos e comerciantes do centro de São Paulo. No projeto de sociedade que vem se construindo no Brasil nas últimas duas décadas, o processo de reconhecimento dos indivíduos e cidadãos passa necessariamente pelo acesso ao mercado, ou seja, consumir. Não é à toa que o que mais se constrói em São Paulo e no restante do Brasil nos últimos anos são novos shopping centers e hipermercados. Na sociedade de consumo, shopping centers configuram um espaço de imbricamento de consumo, sociabilidade e lazer em um espaço privado. Historicamente no Brasil o consumo é uma prática reservada a grupos minoritários pertencentes às elites e, por conta disso, foi/é usado como forma de distinção social. Mas a expansão do consumo que vem se dando nos últimos anos faz com que a distinção social que ele estabelecia anteriormente não tenha o mesmo efeito na conjuntura atual.

Por outro lado, é necessário possuir certa sensibilidade para não reproduzirmos ideias equivocadas oriundas do senso comum. Jovens e pobres (negros ou brancos) sempre consumiram e frequentaram shoppings no Brasil. Tanto é verdade que os rolezinhos em sua maioria vêm acontecendo até agora em shoppings com um perfil mais popular o que comprova que há muitos anos já ocorreu uma segmentação dos shoppings por classe social. Por outro lado, o que vemos hoje é um aumento da dinâmica de consumo aliado à necessidade de reconhecimento social através dele. As novas tecnologias de informação também contribuem para esse processo. O funk ostentação paulista e os rolezinhos não existiriam hoje sem o acesso destes jovens a computadores pessoais, smartphones e à Internet (assista o documentário Funk Ostentação AQUI).

Por fim, vale lembrar que, a priori, os rolezinhos não têm a mesma conotação política que os protestos que ocorreram no meio do ano e que tiveram seu epicentro nas reivindicações por revogação do aumento da tarifa de ônibus. Também discordo da idéia de resistência. Rolezinho tem a ver com consumo, lazer e sociabilidade da juventude pobre ou de classe média baixa. Somente se considerarmos que o  reconhecimento social na atualidade se dá muito mais via consumo do que necessariamente pela incorporação de direitos civis, políticos e sociais, aliado à repressão que vem se dando aos rolezinhos (com contornos de classe e raça) é que poderemos ver o impacto e aspecto político/social desse fenômeno. Explico-me.

Ser negro/a, mestiço/a (raça) e pobre (classe) no Brasil significa lutar contra estigmas vigentes na ordem social e que estão incorporados na pele, no cabelo, na forma de falar, de se vestir e na prática do lazer/sociabilidade da juventude do rolezinho. Quando uma multidão de jovens com esse perfil se reúne para se divertir de forma pacífica em um espaço privado, socialmente higienizado, sobre vigilância e dedicado ao consumo isso gera uma histeria generalizada que o sociólogo inglês Stanley Cohen classificou de "moral panic" (pânico moral) em seu livro Moral Panic and Devil Folks (1972), ou seja, uma condição, episódio, pessoa ou grupo de pessoas que emergem e são definidas como uma ameaça aos valores societários e interesses (ordem social). E daí, "pau" ou cadeia neles! Nesse sentido, vale a pena resgatar a fala de Paulo Duarte nos anos 1940 para fechar e resumir esse post: "Uma coisa, porém, existe e existirá com absoluta nitidez, a deliberação marcada pelo consenso unânime dos brasileiros lúcidos: o Brasil quer ser um país branco e não um país negro”.

Há nos rolezinhos uma potencialidade política/social que, na minha opinião, ainda não se desenvolveu. Mas... Quem é que sabe sobre o dia de amanhã?

Muita Paz Muito Amor!

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

"12 Anos de Escravidão": violência, sexo, repulsa, atração e política.


Dias atrás assisti o filme do diretor britânico Steve McQueen, 12 Anos de Escravidão ("12 Years a Slave"). Muito tem sido falado a respeito dessa película e da ausência em Hollywood de bons filmes sobre a escravidão africana nas Américas. Tenho algumas opiniões sobre os dois pontos.

Sobre o filme, diria que é bom, mas nada espetacular. O roteiro foi baseado no relato verídico Twelve Years a Slave (1853) de Solomon Northup (interpretado no filme pelo ator inglês Chiwetel Ejiofor) negro livre de Nova York que em 1841 foi sequestrado em Washington D.C. e, posteriormente, vendido como escravo na Louisiana, sul dos Estados Unidos. Há muitas cenas de violência no filme como os castigos corporais nos quais os/as escravizados/as eram submetidos/as, estupros e todas as práticas bárbaras que faziam parte do processo de desumanização instaurado pela escravidão. Em minha opinião, o ponto mais interessante da história é a relação entre os personagens de Michael Fassbender e da atriz queniana Lupita Nyong'o. Fassbender interpreta o senhor de escravos que estabelece uma relação sádica de repulsa e atração pela escravizada interpretada por Nyong'o. Impossibilitado pela lógica do sistema escravista de demonstrar sua atração pela escrava, o senhor de engenho canaliza sua ira contra ela estuprando e castigando-a de forma cruel. A relação se transforma em sadismo por parte do personagem de Fassbender que passa a sentir prazer sexual ao martirizar fisicamente a escravizada. A propósito, o universo sexualizado da película e o ritmo lento da narrativa podem ser vistos como a assinatura do diretor McQueen. Basta assistir Shame, filme do mesmo diretor datado de 2011, para identificar esses dois traços.


Mas por que não existem bons filmes sobre a escravidão? Não é algo fácil de responder, mas não custa nada tentar. Talvez valha a pena respondê-la formulando outra pergunta: por que há tantos filmes sobre o holocausto? É justamente aí que entra a política da indústria de cinema de Hollywood. A escravidão é um tema ainda tabu, pois remete a um período vergonhoso da história de países que foram escravistas e/ou se beneficiaram de alguma forma da escravidão ou do tráfico negreiro. E falar de escravidão é falar da relação violenta e de subjulgação de brancos/as em relação a negro/as, tema que a maioria das pessoas prefere evitar. Fazer filmes sobre o holocausto no entanto é mais confortável para Hollywood considerando que esse genocídio ocorreu na distante Alemanha nazista,  num evento (Segunda Guerra Mundial) histórico recente e no qual norte americanos se saíram como os grandes mocinhos. Há também de se considerar o lobby e a presença de diretores pertencentes à comunidade judaica na indústria de entretenimento americana além do papel identitário que o holocausto passou a ter para judeus de todo o mundo.

Por fim, é necessário lembrar de um argumento levantado pelo filósofo francês Jean Paul Sartre (1905-1980) no seu livro Reflexões Sobre o Racismo. Sartre compara o tipo de discriminação sofrida por negros e judeus e afirma que a despeito de ambos serem vítimas de preconceito, judeus são socialmente vistos como brancos. Considerando que no racismo ocorre um processo de naturalização do/as negros como pobres, feios, menos inteligentes etc., é mais fácil sentir compaixão por aqueles/as que, mesmo submetidos/as à desumanização, estão mais próximos ou dentro do padrão normativo: branco/as. Exemplo do que falo pode ser visto no caso recente do "mendingo gato" de Curitiba ou quando pessoas se surpreendem ao verem crianças abandonadas não negras e/ou mestiças. Enfim,  acho que uma mistura de todos esses elementos explicam porque um filme sobre holocausto é mais fácil de ser produzido e arregimenta mais público do que aqueles que retratam a escravidão.


Ainda em tempo: enquanto escrevia esse post, 12 Anos de Escravidão faturou o Globo de Ouro como melhor filme de drama. Assista abaixo o trailer do filme que deve entrar em cartaz nos cinemas brasileiros em fevereiro.

Muita Paz Muito Amor! 


sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

"Yellow": crônicas de um homem negro claro!

FELIZ 2014!

Estou de volta escevendo minhas besteiras. Começo o ano falando um pouco de Internet, vídeo e estética negra. Nos últimos anos a rede mundial de computadores vem se tornando num espaço de experimentação e vitrine para projetos inovadores como documentários e séries. Já falei aqui no blog sobre algumas delas: The Misadventures of an Awkward Black Girl de Issa Rae (que acabou de assinar com a produtora/canal de TV HBO) e The Couple (leia mais AQUI). Quase na mesma linha dessas duas web séries foi lançado recentemente Yellow: a docu-series. The Pleasures and Problem of the Light Skinned Black Man. O ator que interpreta o papel principal é Austen Jaye cujo o nome no vídeo é Austin.  A criação, roteiro e direção é de Numa Perrier, co-fundadora da rede de TV independente Sexy&BlackTV (assista a TV pelo YouTube) no qual é possível assistir outros projetos de web séries como That Guy, "Roomieloverfriends" e Hello Cupid. O canal surgiu como derivativo do filme independente A Good Day To Be Black And Sexy, dirigido por Dennis Dortch em 2008 (leia mais AQUI).

Yellow, como o próprio subtítulo explica, explora histórias recorrentemente vividas por homens negros de pele mais clara (light skinned). Acho que um dos grandes atrativos para as mulheres assistirem a série são os dotes físicos do ator principal: Austen Jaye. Ri muito com o primeiro episódio da série (assista logo abaixo). Infelizmente, não há legendas em português. Mas faça um esforcinho e tente enfrentar o idioma imperialista, vale a pena!

Muita Paz e Muito Amor!