quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

E a mulata é a tal!

Meus amigos do movimento negro odeiam expressões do tipo mulato(a), pardo(a) e moreno(a) enquanto meu outro amigo, o antropólogo Peter Fry, afirma que é essa indefinição o que faz do Brasil Brasil. Para boa parte dos ativistas, as categorias citadas acima expõem uma negação de uma identidade negra devido ao estigma que paira sobre a mesma, enquanto que para alguns cientistas sociais elas nada mais são do que a recusa nacional a uma classificação racial mais rígida como a norte-americana (black e white). Pois bem, a briga é boa e o debate está inflado de sentimenos e interesses. Mas estamos perto do Carnaval, momento em que tanto ativistas e cientistas sociais devem se encontrar nos ensaios de escola de samba ou na avenida com uma das categoria em carne em osso: a mulata!

A mulata tem a sua história enraizada com a identidade nacional. É possível perceber isso numa leitura da literatura realista/naturalista de Aluízio Azevedo em livros como O Mulato (1881) e O Cortiço (1890), nesse último, aliás, é possível perceber uma clara distinção entre uma personagem feminina negra (Bertoleza) e outra mulata (Rita Baiana). Nos anos 1940, no Rio de Janeiro, o Teatro Experimental do Negro (TEN), sobre o comando de Abdias do Nascimento e captalizando uma idéia do sociólogo Guerreiro Ramos, passou a organizar um concurso de beleza chamado Bonequinha de Pixe e Rainha das Mulatas. Contudo, foi nos anos 1960 e 1970 que a valorização da mulata chegou ao seu auge com o Renascença Clube no Rio de janeiro organizando seus concursos de beleza e personagens como o empresário Oswaldo Sargentelli abrindo casas de shows e excursionando pelo mundo com apresentações de dançarinas conhecidas como "mulatas do Sargentelli". A mulata era a tal! Vista como produto nacional, objeto de admiração e desejo! Contudo, a posição da mesma no imaginário nacional sempre foi ambígua. Vários estudos acadêmicos mostram como a imagem dessa categoria racial tem sido associada a noção de "excesso" no que diz respeito a sexualidade. Alguns exemplos de livros que apontam isso são as obras de Teófilo de Souza Queiroz (1975) e Sonia Giacomini (1992) intituladas, respectivamente, Preconceito de cor e a Mulata na literatura brasileira e Profissão mulata: natureza e aprendizagem num curso de formação. O título de Giacomini é uma dissertação de mestrado que nunca foi publicada, mas é possível ler artigos que resumem o argumento central do trabalho e seu último livro, sobre o qual escrevi uma resenha e recomendo a leitura (do livro, não da resenha! *rs*), aborda o tema da mulher negra/mestiça numa outra perspectiva.

Porém, não é necessário ser intelectual/acadêmico para perceber o lócus social que nossa cultura reserva a mulher mestiça. O ditado popular "branca para casar, negra para trabalhar e mulata para fornicar" resume o enredo presente no romance de 1890 de Aluízio Azevedo. Ali Rita Baiana é a personagem que corrõe a moralidade do português Miranda, João Romão explora o trabalho e a sexualidade de Bertoleza como se essa fosse um animal para depois abandoná-la e desposar a branca Zulmira.

Mas o Carnaval, com sua alegria e sensualidade, vem chegando e a mulata ressurge com força total. A mulata Globeleza Valéria Valenssa já saiu de cena há alguns anos atrás (segundo consta, é frequentadora da Igreja Universal atualmente), Sargentelli faleceu vítima de um enfarto em 2002, mas continuam a surgir aqueles que querem substituir essas figuras lendárias. Isso fica provado pelo site que me foi enviado por um amigo diretamente do jornal Globo. Nesse caso você irá escolher a "Mulata do Gois 2009"... Divirtam-se ou odeiem! *rs*

7 comentários:

ALGUÉM disse...

Oi Kibe!! Que bom encontrá-lo por aqui!!!! Gostei muito do texto....
E uma coisa é certa: "se vc procura alguém do movimento e não consegue achar...só ir no baile de carnaval que tá todo mundo lá... pra se divertir e pra criticar...né???
bjossss.

Kibe disse...

Hi Alguém,
Pena que os bailes de carnaval estão desaparecendo, não?! Vi uma reportagem tempos atrás que os clubes estão organizando cada vez menos bailes devido a uma série de fatores que não me lembro bem agora (acho que tinha haver com a violência, drogas, custos e o esvaziamento das famílias desses eventos). Por outro lado, o carnaval popular de rua tem ressurgido em lugares como o Rio de Janeiro. Mas nós, paulistas, continuamos a pagar para assistir o desfile no Anhembi e depois fazemos um "bate e volta" pra Praia Grande! *rs* Eu, infelizmente, vou ver o carnaval de longe passando frio...
Beijos!

Kibe disse...

Em vez de me deparar com mulatas vou, com sorte, topar com "light skinned girls"...

Giovana disse...

Oi Kibe;

Aqui é a Giovana. Não sei se lembra de mim. Faço doutorado na Unicamp com o Sidney e nos conhecemos no Fábrica das Fábricas. Eu chego aí em NY nesta terça, dia 13 de janeiro, e vou ficar um ano fazendo bolsa sandwich. A casa que ia ficar furou, então estou tentando procurar um lugar para já chegar aí com algo fechado. Tenho visitado o Craiglist, mas como não conheço nada, não tenho muitos critérios de escolha. Será que você sabe de algo? Meu mail é: gixavier@yahoo.com.br
BJKS!

Gabi disse...

Que que é isso Kibe: "encontrar a categoria mulata" que negócio machista, mulher, seja ela branca, azul, preta ou vermelha não é categoria!
Bjos irados,
Gabriela

Gabi disse...

E uma pergunta que não quer calar: em qual categoria de homem você se enquadra? rsrs
bjos,

Kibe disse...

Hey Gabi,

Mulata pode ser uma categoria de classificação racial usada pelas pesoas, mas uma categoria de análise sócio-antropológica incorporada por pesquisadores em sua análise. O engraçado é que muitas mulheres, mesmo que você não goste disso, incorporam a mulata nessa época do carnaval. Ah, e mulher também é uma categoria sexual (homem/mulher) que é diferente de gênero (masculino/feminino).

Bem, quanto a mim estou em várias categorias: preto (racial), homem (sexo), hetero (orientação sexual), masculino (gênero) e, de acordo com você, "machista"...

Ah, mas minha categoria predileta e de homem admirador das mulheres pretas.. .